Perspectiva

Não creio que eu tenha um modelo para escrever uma postagem deste blog ou uma obra de ficção.

Se tivesse, talvez fosse mais fácil.

Primeiro faço isso, depois aquilo, então aquilo outro, e pronto: tenho sempre o mesmo bom resultado.

No máximo posso dizer que vou juntando pedacinhos de ideias, consciente ou inconscientemente, até ter uma visão, mesmo que só um vislumbre, de algo maior com o qual posso começar a trabalhar em texto.

Como ou de onde essas ideias vêm, isso é o que sempre difere em cada caso, para a minha frustração.

Mas ao mesmo tempo, talvez essa seja a graça e a magia da coisa, de sempre acontecer de um modo diferente toda vez, porque, bem, tudo está em movimento e mudando o tempo todo, ainda que não se perceba, como dizem os budistas.

E como no Ving Tsun, não existem técnicas a serem usadas sempre daquela mesma maneira naquele tipo de situação, pois cada situação é única e a pessoa que você é naquele momento também.

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Carta

Caro Si Taai Gung,

Anteontem, dia 27 de junho, nós da Família Moy Jo Lei Ou comemoramos o seu aniversário.

Sim, é verdade: deveria ser dia 28, mas nosso si fu, Julio Camacho, que o senhor bem conhecia, faria uma viagem a São Paulo no dia 28 justamente para a inauguração de um instituto com seu nome, idealizado por meu si gung, Leo Imamura, seu discípulo.

Sabemos que o senhor de fato nasceu no dia 27, então no fundo consideramos que a necessidade de celebrar um dia antes não foi de todo equivocada. Não sei se o senhor aprovaria, mas foi de coração.

Si Fu contou várias histórias a seu respeito — engraçadas, sérias, curiosas, misteriosas. Alguns detalhes talvez só o senhor seria capaz de esclarecer. Por ora, contentamo-nos com especulações e aproveitamos os momentos em que essas histórias são contadas para ficarmos mais próximos como família.

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Fluir

Estagnação é uma coisa horrível.

E o pior que pode acontecer a alguém que tem vontade de realizar mil sonhos é nascer com (ou desenvolver) a natureza de sempre recair nessa estagnação quando quer que entre em um ritmo minimamente positivo.

O melhor que o Ving Tsun pode oferecer a essa pessoa, talvez, seja encontrar o potencial de fluir com maior frequência. Digo encontrar porque acho que forçar esse fluxo, forçar a sua criação, não é bem a resposta.

Mas é preciso que haja um alinhamento entre a percepção, a vontade e o fluxo para ter um resultado ao mesmo tempo efetivo e sem grande sofrimento.

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Coração

Por que “Jornada do Coração”? O que isso tem a ver com kung fu ou o Ving Tsun?

São perguntas que leitores que não são praticantes podem estar se fazendo, já que pessoas com pelo menos alguns meses de prática provavelmente têm alguma noção do motivo.

O chamado sam faat (心法) é um conceito muito presente no dia a dia de um praticante ativo de Ving Tsun da linhagem Moy Yat. Eu diria que é quase impossível passar uma semana de práticas sem que ele seja mencionado ao menos uma vez, e mesmo quando não é mencionado, ele se faz presente, ainda que não se o note, na convivência com o si fu e nas atividades do mo gun.

Sam faat, termo cantonês, é composto de dois ideogramas chineses: o sam (心), que frequentemente é traduzido como “coração”, o coração metafórico, e o faat (法), que traz a ideia de um método, um caminho ou uma lei.

“Método do coração” ou “caminho do coração” seriam traduções literais e, a meu ver, aceitáveis, mas meu si taai gung (o mestre do mestre do meu mestre), Patriarca Moy Yat, chamava-o em inglês de kung fu life, ou seja, vida kung fu.

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Irmãos

“Tchau, Si Hing!”

Não se passou nem meia hora do instante em que disse essas palavras na saída do mo gun, quando Si Hing Niklas Corrêa entrou em um Uber e eu em outro, até agora, ao sentar-me para escrever este texto.

Percebi que ser novo em uma família kung fu é estar com “Si Hing” ou “Si Je” na ponta da língua o tempo todo.

Às vezes me pergunto se não é cansativo, não para mim, mas para aquela pessoa a quem me refiro assim.

Isso porque aprendi que ao chamar um irmão kung fu mais velho de si hing, não se trata somente de uma manifestação de respeito por parte do si dai, mas também — e talvez principalmente — de uma lembrança a esse si hing de seu papel na orientação desse si dai.

Ser lembrado a toda hora que você tem um papel a cumprir talvez seja desgastante — e talvez eu tenha um pouco de medo de estar, com cada vez mais frequência, como é esperado, na posição de si hing.

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Convivência

Uma das questões que me fizeram hesitar aceitar o convite para entrar na Família Moy Jo Lei Ou foi justamente a ideia de “família” em si e as implicações disso.

Se por um lado eu admirava a beleza de pessoas que praticavam juntas como irmãos, por outro eu me perguntava como se dava essa relação entre elas de fato, se havia regras, se havia problemas.

Com a minha notória autoconfiança, eu tinha certeza de que, caso fosse um grupo de extraordinária harmonia, eu seria o tão temido arauto da discórdia.

É claro que, no fundo, eu sabia que mesmo se tratando de pessoas que mantinham boas relações na maior parte do tempo, “extraordinária harmonia” é pedir um pouco demais de qualquer ajuntamento humano que exista por mais do que algumas horas.

O que eu mais queria saber, simples e concretamente, era como os irmãos kung fu resolviam suas diferenças em diversos âmbitos para poderem conviver e praticar juntos.

Haveria casos de briga feia em que dois irmãos se recusassem a praticar um com o outro?

Haveria casos em que um “esquerdopata com presidiário de estimação” e um “bolsominion fascista” entrassem em conflito grave?

O cenário político da época em que eu estava para entrar na Família, aliás, foi o principal ponto de partida para as minhas indagações.

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Culpa

Faltei à prática de terça.

Não por ter um motivo impeditivo sério, como estar doente ou precisar dar conta de um compromisso urgente, mas por uma confluência de condições que me fazia acreditar dispor de uma justificativa aceitável.

Minha irmã, que mora fora do país, acabara de chegar ao Brasil para uma curta estadia, e eu também não estava mentalmente disposto para nada que exigisse muita concentração e esforço.

Enviei uma mensagem ao Núcleo avisando que não iria, e apesar de receber um OK como resposta, não consegui evitar uma sensação de culpa.

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