Plantas

Depois de certos eventos, sejam relacionados ao Ving Tsun ou não, tenho a tendência de achar que finalizei meus afazeres por um bom tempo e poderei tirar férias de qualquer compromisso minimamente estressante dessa natureza.

“Depois do aniversário do Si Fu, vou poder descansar.”

“Depois da visita do Si Gung, vou poder descansar.”

“Depois do meu Baai Si, vou poder descansar.”

“Depois de escrever sobre o Baai Si, vou poder descansar.”

É uma busca constante e inócua pelo sentimento de poder dizer: “Pronto. Zerei a vida.” (Outra expressão dos jovens interneteiros, aliás.)

Isso é um problema, porque atribui qualquer sentimento de realização somente ao “ter feito” e nunca ao “fazer”. E todo o tempo enquanto não se alcança o “ter feito”, o “fazer” é repleto de ansiedade, distrações, vontade de desistir.

Que vida é essa? A minha, pelo visto. Principalmente porque também é uma realidade com relação à minha vida fora do Ving Tsun.

Eu diria até que, no Ving Tsun, pelo menos, eu sou desafiado e estimulado a apenas fazer, não importa o momento, e acabo sentindo-me, de certa maneira, produtivo.

Só que o mesmo não acontece quando estou só, diante de tarefas, projetos e vontades pessoais.

Como escritor, por exemplo, considero-me extremamente improdutivo, e mesmo tendo muito mais horas disponíveis para escrever do que tenho de horas praticando Ving Tsun, ainda assim sinto que sou mais realizado no Ving Tsun.

Outro problema, pois, para mim, o Ving Tsun não é um fim, mas um meio.

Por mais bela e afiada que fique, não quero somente forjar a espada, quero matar o dragão.

Eu enxergo Si Fu como uma pessoa que está sempre em movimento.

Sempre fazendo. Sempre realizando.

Incansável. Focado.

O oposto de mim.

Nem quando está doente, como está agora, cessa completamente as atividades, apenas redireciona a energia que tem para fazer o que pode no momento.

Como se estivesse sempre aproveitando cada frestinha de tempo para algo edificante.

Enquanto isso, provavelmente estou vendo bobagens no Twitter, “descansando”. Porque depois daquele tantinho que trabalhei, obviamente preciso de férias.

Uma típica noite de quinta-feira no mo gun. Da esquerda para a direita: Si Hing Pedro Corrêa, Si Hing Bruno Brandão, Si Hing Iuri Alvarenga, Eduardo Figueiredo e Si Hing Leo Reis.

Isso me lembra uma situação que tem sido recorrente nas noites de quinta-feira no mo gun.

À essa hora, eu quase sempre já participei de dois horários de prática pela tarde, e por isso já me cansei um pouco.

É à noite, no entanto, que costumam vir alguns si hing experientes, todos do Programa Tradicional, reservado aos discípulos.

É uma hora perfeita para a prática, tanto pela experiência de cada si hing, como pela variação de pessoas com quem praticar, algo importante para nosso progresso.

E, às vezes, fico de fora.

EU: Tô cansado.
Si Hing Leo Reis vem caçoar.
SI HING LEO: Cansado de quê, Rafael?
EU: Já pratiquei muito hoje, Si Hing…
SI HING LEO: Rafael, olha, você…!
Ele leva as mãos ao rosto e o esfrega em furor encenado como se fosse um modelo de argila fresca que ele estivesse tentando desmanchar.
EU: Eu sou o idoso daqui, Si Hing.

Variações disso são quase uma piada interna de toda quinta a este ponto.

A questão é: Não há nada errado em precisar descansar e ninguém é obrigado a praticar se não se sente apto. Sei disso. Agora… não só no que tange ao Ving Tsun, estou sendo honesto comigo mesmo quando acho que não dá para ir além?

Si Hing André, além de ser diretor do Núcleo Barra, ou é tutor ou é praticante de todas as sessões de quinta. Muitos dos que vêm à noite estão chegando de um dia inteiro de trabalho. Por que eu sou diferente?

Irmãos kung fu já me disseram que fazer esse tipo de comparação não é benéfico para mim, que todos têm seu próprio tempo, suas necessidades.

Si Fu também faz uma analogia entre o praticante e uma semente sendo regada: não se pode controlar o crescimento da planta, apenas regular a rega e aguardar.

Talvez aquela planta que ainda esteja tão pequena depois de tanto tempo sofra um estirão.

Talvez nem se perceba que aquela outra está sempre crescendo, ainda que lentamente, como cabelo e unhas, e quando olhamos de novo para ela, está imensa.

Nem a própria planta percebe, eu diria.

Dá para ir além? No meu caso, tenho certeza de que dá. Acho que só falta aplicar mais o que desenvolvo no Ving Tsun à minha vida como um todo e acreditar mais em mim como o Si Fu acredita em todos nós.

E se for tão difícil me livrar de algumas comparações de vez em quando, bem… eu posso não escrever tanto quanto o Stephen King, mas certamente escrevo mais que o George Martin!

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