Faltei à prática de terça.

Não por ter um motivo impeditivo sério, como estar doente ou precisar dar conta de um compromisso urgente, mas por uma confluência de condições que me fazia acreditar dispor de uma justificativa aceitável.

Minha irmã, que mora fora do país, acabara de chegar ao Brasil para uma curta estadia, e eu também não estava mentalmente disposto para nada que exigisse muita concentração e esforço.

Enviei uma mensagem ao Núcleo avisando que não iria, e apesar de receber um OK como resposta, não consegui evitar uma sensação de culpa.

É coisa minha. Sinto que sempre estou sendo cobrado. Que falhei de alguma forma.

Certa vez, antes da visita do Si Gung ao Núcleo Barra em janeiro, eu estava no mo gun inserindo os certificados do novo diretor, Si Hing André, e do novo diretor adjunto, Si Hing Guilherme, em molduras para serem pendurados na parede.

Ficou faltando a foto dos dois com o Si Fu, que eu não conseguia encontrar, e fui embora do mo gun sem resolver essa questão.

Eu já estava saindo do condomínio prestes a embarcar em um Uber quando Si Hing André me liga para me perguntar sobre a foto.

Digo que não sei o que aconteceu com ela.

Si Hing André não briga comigo, mas faz uma admoestação sobre a importância de não largar processos no meio sem o encaminhamento devido.

Daquela hora até o momento da visita do Si Gung, no dia seguinte, a culpa pesava sobre mim.

Cheguei a enviar uma mensagem a Si Hing André ainda naquela noite perguntando se haviam encontrado a foto, e ele me respondeu em áudio, com um tom de voz mais simpático, que estava tudo certo, que a foto estava embaixo da mesa e que ele e Si Hing Pedro Corrêa haviam emoldurado e pendurado o que restava.

Mesmo assim, sentia-me o membro mais inútil de qualquer família kung fu que já existiu. Só atrapalhava. Todos certamente estavam falando mal de mim pelas costas. E com razão.

Só fui sentir certo alívio literalmente minutos antes da chegada do Si Gung ao mo gun, quando vi Si Hing André entrar no jing tong, a sala no mo gun dedicada aos ancestrais, e resolvi ir falar com ele para desculpar-me.

Ele me disse que não ficasse me sentindo culpado, que a culpa é um sentimento que não ajuda. O importante é como eu me apoio em uma situação na qual considero que minha atuação não foi tão boa para gerar algo positivo, de preferência para mim e para os outros.

Posteriormente Si Gung também falou de como é preciso olhar para o aprendizado como um processo, com erros e acertos, que nunca termina.

Mas sempre caio na ilusão de que é possível acertar sempre, a fim de evitar a culpa subsequente.

Si Gung e Si Fu: ensinamentos sobre aprendizado e culpa.

Si Fu diz que a palavra “desculpar”, des + culpar, significa tirar, desfazer a culpa de alguém.

Então, quando uma pessoa diz “me desculpe”, ela está pedindo que outra tire dela a culpa que carrega.

Nisso é preciso atentar a dois pontos: se a pessoa realmente tem essa culpa e por que é necessário que outra pessoa tire dela essa culpa.

É normal e quase automático que peçamos desculpas mesmo quando algo completamente inofensivo ocorre, como o alarme de seu celular tocar durante um discurso seu.

Foi exatamente esse o caso de nosso irmão kung fu Gabriel Kloppenburg enquanto falava a todos na ocasião de sua admissão na Família Moy Jo Lei Ou.

Si Fu, com seu tato especial para não constranger Gabriel, explicou que pedir desculpas naquela situação não era preciso, pois o toque do alarme até deixou um clima mais leve no ar e sorrisos nos rostos de todos.

Ora, se ninguém o culpou de nada, então ninguém poderia desculpá-lo, já que ele não tinha essa culpa para começo de conversa.

E mesmo que essa culpa de fato exista, por que o mais importante é que outra pessoa lhe retire a culpa em vez de aproveitar-se do ocorrido para resolver e até melhorar a situação?

Em um exemplo durante uma prática recente, Si Hing André disse que, se alguém quebra o relógio que está pendurado na parede do mo gun, melhor do que pedir desculpas é pensar como uma situação indesejável pode gerar algo bom.

Talvez comprar um relógio ainda melhor.

Talvez a pessoa que o quebrou tenha alguma experiência com conserto de pequenos mecanismos e use o relógio quebrado para aperfeiçoar sua habilidade.

Quem diria que a etimologia de uma palavra poderia nos fazer pensar com essa profundidade sobre as relações humanas?

Também me fará pensar mais sobre a relação que tenho comigo mesmo.

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