Uma das questões que me fizeram hesitar aceitar o convite para entrar na Família Moy Jo Lei Ou foi justamente a ideia de “família” em si e as implicações disso.

Se por um lado eu admirava a beleza de pessoas que praticavam juntas como irmãos, por outro eu me perguntava como se dava essa relação entre elas de fato, se havia regras, se havia problemas.

Com a minha notória autoconfiança, eu tinha certeza de que, caso fosse um grupo de extraordinária harmonia, eu seria o tão temido arauto da discórdia.

É claro que, no fundo, eu sabia que mesmo se tratando de pessoas que mantinham boas relações na maior parte do tempo, “extraordinária harmonia” é pedir um pouco demais de qualquer ajuntamento humano que exista por mais do que algumas horas.

O que eu mais queria saber, simples e concretamente, era como os irmãos kung fu resolviam suas diferenças em diversos âmbitos para poderem conviver e praticar juntos.

Haveria casos de briga feia em que dois irmãos se recusassem a praticar um com o outro?

Haveria casos em que um “esquerdopata com presidiário de estimação” e um “bolsominion fascista” entrassem em conflito grave?

O cenário político da época em que eu estava para entrar na Família, aliás, foi o principal ponto de partida para as minhas indagações.

Aproveitei o período das eleições de 2018 para pôr o tema em pauta durante um dos Colóquios que Si Fu coordena. (Um Colóquio é um encontro no qual os participantes propõem assuntos que Si Fu relaciona com o kung fu e todos conversam sobre eles.)

Si Je Rubia e eu: o Rato e o Cavalo com muitas concordâncias.

Si Fu citou um exemplo histórico e emblemático de um policial e um mafioso em Hong Kong que pertenciam à mesma família kung fu, dando a entender que até grandes diferenças aparentemente irreconciliáveis podem existir em paralelo à prática e não comprometer o convívio dentro da família.

Isso fez as diferenças políticas do nosso dia a dia, por mais acirradas que possam se tornar, parecerem, por um momento, insignificantes.

Si Fu ainda pondera que as pessoas se preocupam demais com o grande esquema das coisas, com querer “salvar o país”, mas não se preocupam em melhorar o próprio prédio, a própria rua.

Em quase dez meses de Ving Tsun, ainda não conheço muito claramente as posições políticas da grande maioria de meus irmãos kung fu.

Apenas posso inferir qual poderia ser a posição de cada um por meio de conversas casuais e comentários isolados.

Procurei observar se essas diferentes posições chegavam a causar algum mal-estar.

O que eu fui percebendo com o tempo, entretanto, foi que uma disputa política que literalmente provocou cortes de relações em famílias consanguíneas nos últimos tempos parece ter tido um efeito pífio na minha família kung fu.

Observei momentos em que minha si je Rubia, com quem tive uma conversa recente maravilhosa que foi de Star Wars à automação dos processos produtivos no trabalho, apresentava algumas discordâncias com outros irmãos kung fu, mas que em nada isso pareceu afetar a prática e o bom convívio entre eles.

Também falo por mim, já que Si Je Rubia e eu temos posições no mínimo semelhantes, um exemplo de um Rato e um Cavalo que, contrariando a compatibilidade do zodíaco chinês, se dão muito bem.

Cabe então a pergunta: qual é o segredo da família kung fu?

Como pessoas de idades, origens, profissões, crenças religiosas e pensamentos políticos tão variados mantêm-se unidos e ajudam-se corriqueiramente?

Talvez a resposta esteja na própria prática, no Ving Tsun.

Um sistema marcial que enfatiza tanto a conexão com o outro, apoiar-se no que o outro te dá, independentemente do que seja, deve de fato levar-nos a enxergar a humanidade do outro para além de rótulos simplistas (e gerar debates políticos na TV mais úteis à população).

E a figura do si fu age ao mesmo tempo como um integrador desse grupo tão diversificado e como um provocador das certezas de cada um.

Ao menos o nosso si fu eu vejo dessa maneira.

Sempre digo que desejo que nosso caminho juntos seja longo e não bom, porque um caminho que é só bom é curto, mas um caminho longo tem altos e baixos.

Mestre Julio Camacho

Acabou que eu não trouxe a discórdia à Família no final das contas.

Eu acho.

E não que não possa haver questões entre irmãos às vezes, mas penso que praticar Ving Tsun é antes de tudo reconhecer-se imperfeito e admitir que não haverá a prática sempre boa, a relação sempre boa, o resultado sempre bom.

“Sim, você ainda vai errar muito”, disse-me Si Fu com descontração naquele mesmo Colóquio.

Afinal, eu diria que se estamos desenvolvendo nossa humanidade, e nenhum ser humano é perfeito, como podemos esperar tal perfeição?

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