Estagnação é uma coisa horrível.

E o pior que pode acontecer a alguém que tem vontade de realizar mil sonhos é nascer com (ou desenvolver) a natureza de sempre recair nessa estagnação quando quer que entre em um ritmo minimamente positivo.

O melhor que o Ving Tsun pode oferecer a essa pessoa, talvez, seja encontrar o potencial de fluir com maior frequência. Digo encontrar porque acho que forçar esse fluxo, forçar a sua criação, não é bem a resposta.

Mas é preciso que haja um alinhamento entre a percepção, a vontade e o fluxo para ter um resultado ao mesmo tempo efetivo e sem grande sofrimento.

Imagine, por exemplo, que eu queira escrever um texto. Pode ser este mesmo ou um texto de ficção, que são aqueles com os quais mais lido.

Eu quero escrever o texto, mas não quero enfrentar as dificuldades que acompanham a escrita desse texto. A incerteza da qualidade, a incapacidade de pensar nas palavras adequadas, o esmorecimento da paixão inicial por uma ideia que era tão fascinante, mas agora soa banal.

Sem mencionar todas as preocupações, grandes e pequenas, da vida em geral.

Tudo de repente se torna um entrave para cumprir a tarefa e satisfazer a vontade.

Eu costumava pensar que a melhor solução, considerando que eu já não tivesse desistido, era simplesmente calar a boca (e a mente) e fazer.

Nos melhores casos, e eram poucos, eu entrava num ritmo excelente que coincidia com a primeira letra que digitava.

Nos casos medianos, um pouco mais comuns, eu até produzia algo aceitável, mas com muitos suspiros.

Nos piores casos, a maioria, quanto mais eu tentava, mais deprimido ficava, e nada de bom saía. A sensação nessas horas era de que havia mesmo uma barragem ou represa emocional que impedia de correr o rio da criação.

Praticando Ving Tsun, isso ficou ainda mais claro. E antes mesmo do Ving Tsun, quando meu si hing Iuri Alvarenga era meu psicoterapeuta, ele falava da água como algo que corre sempre que encontra um espaço, uma abertura, sem forçar sua passagem por um obstáculo à frente. Ela apenas o contorna.

É claro que, na época, eu não tinha ideia de que ele estava usando o Ving Tsun na terapia.

Agora não só sei na teoria, como sinto na prática.

Trazendo então o Ving Tsun para o problema da escrita ou qualquer outro de qualquer teor, eu passo a enxergar, primeiramente, que um rio existe.

É um rio que representa tanto nosso estado emocional, o que sentimos e pensamos, quanto o estado ambiental, o que está acontecendo à nossa volta. Esse rio sempre vai em direção daquilo que queremos alcançar, e vamos navegar no fluxo desse rio para chegar até lá.

Só que, para entrar no rio, é necessário um pequeno ato, seja de coragem, seja de curiosidade, o mínimo para colocarmos o barco ou a boia na água. E é aí que entra nossa percepção de como o rio está fluindo no momento. Porque nem sempre é o melhor momento para entrarmos. Às vezes é um gasto desnecessário de tempo e energia.

Meu maior erro, geralmente, não é nem entrar quando o fluxo está ruim e tentar remar desesperada e inutilmente, gastando toda a minha energia, sem quase sair do lugar: é perceber que o fluxo do rio está minimamente bom e mesmo assim não aproveitá-lo, pois sempre quero uma correnteza veloz, totalmente favorável.

E quem não quer? Mas precisamos fazer o melhor com o que temos.

Já tive muitos dias péssimos em que, aparentemente, o rio estava parado, detido por uma barragem em algum ponto invisível do percurso. Eu não tinha disposição para fazer nada de valor, e ainda me distraía com bobagens, não mais prestando atenção no fluxo do rio. Porque se eu prestasse, veria que, em um ou outro momento, ele estava sim correndo, nem que fosse um pouquinho.

É essa percepção aguçada do fluir do rio que sinto estar desenvolvendo com minha prática de Ving Tsun.

O kung fu para notar momentos propícios ocultos.

Há algo que possamos fazer para aumentar a força da correnteza? Há, mas o que não há é garantia de que fazendo isso ou aquilo, ela aumentará.

Dou como exemplo aqueles hábitos de fazer certas tarefas em certos horários. Se eu me sento todos os dias às nove da manhã para escrever por três horas (quem me dera), eu estou criando um cenário no qual minha atenção ao rio é grande, então quando ele fluir melhor, vou perceber, e se souber aproveitá-lo e gostar do que estou produzindo, talvez ele flua ainda melhor, já que o rio também é um reflexo de como me sinto.

Na nossa prática temos o que chamamos de momento programado e momento oportuno.

O momento programado é, basicamente, aquela hora agendada de aula em que se procura trabalhar certos pontos do sistema e atingir certos objetivos. Mas nem sempre eles são atingidos. Cada prática é uma prática e cada pessoa é uma pessoa.

O momento oportuno surge quando tiver de surgir, quando um rio fluir, alguém perceber e aproveitar. Programa-se então um espaço, físico e temporal, para que uma oportunidade, com alguma sorte, surja.

Quando se pergunta a praticantes quanto tempo de prática diária eles acham que é necessário para ter um bom progresso, são comuns respostas como “três horas”, “cinco horas” e “o máximo de horas possível”.

Conta-se que Patriarca Moy Yat dizia: “Três segundos.”

Todo o resto é uma tentativa de chegar a esses três segundos em que a chave vira, o estalo acontece, a comporta se abre, a perspectiva muda.

Cada vez mais procuro ficar atento ao fluxo do rio e a aproveitar os melhores momentos, ainda que não sejam ideais.

Essa é a minha prática pessoal a fim de evitar a temida estagnação.

Tendo chegado ao fim deste texto, bem, digo que por hoje consegui velejar ao menos um pouco.

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