Caro Si Taai Gung,

Anteontem, dia 27 de junho, nós da Família Moy Jo Lei Ou comemoramos o seu aniversário.

Sim, é verdade: deveria ser dia 28, mas nosso si fu, Julio Camacho, que o senhor bem conhecia, faria uma viagem a São Paulo no dia 28 justamente para a inauguração de um instituto com seu nome, idealizado por meu si gung, Leo Imamura, seu discípulo.

Sabemos que o senhor de fato nasceu no dia 27, então no fundo consideramos que a necessidade de celebrar um dia antes não foi de todo equivocada. Não sei se o senhor aprovaria, mas foi de coração.

Si Fu contou várias histórias a seu respeito — engraçadas, sérias, curiosas, misteriosas. Alguns detalhes talvez só o senhor seria capaz de esclarecer. Por ora, contentamo-nos com especulações e aproveitamos os momentos em que essas histórias são contadas para ficarmos mais próximos como família.

Eu mesmo já me perguntei como seria poder conversar com o senhor. Se é que eu teria coragem para fazê-lo.

Quando Si Gung nos visitou há alguns meses, fiquei tão nervoso, que nem consegui ir pedir sua ajuda durante uma prática na qual eu formava uma dupla com Matheus, discípulo de meu si hing Thiago Pereira. Tínhamos uma dúvida, e Matheus foi quem tomou a iniciativa para chamar Si Gung, e acho que foi graças a isso que Si Gung ficou sabendo pelo menos do meu nome.

Não só isso, pensando em retrospecto, eu acabava inconscientemente me sentando em uma posição distante de Si Gung em vários momentos de sua visita, pois o tanto que eu sentia vontade de aprender com ele era também o tanto que eu me sentia intimidado.

Eu achava que era maluquice minha, mas recentemente Si Fu contou que também via algo de intimidador na figura de Si Gung quando começou a estudar com ele.

Que alívio, porque, para ser muito sincero, também me sinto um pouco intimidado na presença de Si Fu. Muitos falam do quanto ele é aberto e acessível, e é verdade, mas eu sempre trago comigo um desejo de agradar ou de ao menos não incomodar, tentando reduzir ao máximo o tempo que ele gastaria comigo, e acabo me autoimpondo uma distanciação dele que talvez não faça sentido para outros discípulos tão ávidos por aprender com seu si fu.

Por favor, não conte isso a ele. É um pouco embaraçoso.

Além do Ving Tsun, adoraria poder conversar com o senhor sobre outras artes, sobre criar, sobre o fazer.

Sobre pintura, por exemplo.

Na verdade eu desenho, e também gostaria de explorar a pintura em algum momento, mas frequentemente me sinto meio perdido. De tão preocupado com não estar fazendo do jeito certo, acabo não fazendo. Para resolver isso, minha intenção inicial seria fazer uma série de perguntas técnicas, encarando esse aprendizado como algo complexo.

Mas pelo pouco que ainda conheço do senhor, ocorre-me uma fantasia enquanto sonho acordado em que o senhor me olha de relance e diz: “Você quer desenhar? Então desenhe.” E de repente tudo fica tão simples.

O que o senhor acharia de mim, aliás? Da nossa família. Dos nossos mo gun. Das nossas práticas. Penso nisso geralmente quando estou sozinho diante do san toi, olhando seu retrato.

“Você pensa demais, Rafael.”

Tem razão, Si Taai Gung.

Sang yat faai lok — feliz aniversário.

Rafael Pombo
Moy Gap Fat
梅鴿法

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