Não creio que eu tenha um modelo para escrever uma postagem deste blog ou uma obra de ficção.

Se tivesse, talvez fosse mais fácil.

Primeiro faço isso, depois aquilo, então aquilo outro, e pronto: tenho sempre o mesmo bom resultado.

No máximo posso dizer que vou juntando pedacinhos de ideias, consciente ou inconscientemente, até ter uma visão, mesmo que só um vislumbre, de algo maior com o qual posso começar a trabalhar em texto.

Como ou de onde essas ideias vêm, isso é o que sempre difere em cada caso, para a minha frustração.

Mas ao mesmo tempo, talvez essa seja a graça e a magia da coisa, de sempre acontecer de um modo diferente toda vez, porque, bem, tudo está em movimento e mudando o tempo todo, ainda que não se perceba, como dizem os budistas.

E como no Ving Tsun, não existem técnicas a serem usadas sempre daquela mesma maneira naquele tipo de situação, pois cada situação é única e a pessoa que você é naquele momento também.

O que posso afirmar, de fato, é que não costumo escrever as postagens desta página a partir das fotos que porventura sejam inseridas nelas. Essa é uma das “técnicas” possíveis, a de escrever com base em fotos, inclusive sugerida por Si Fu aos to dai que possam estar tendo alguma dificuldade para pensar em algo sobre o qual escrever em suas páginas.

Como alguém que tem mais familiaridade com textos e tecer histórias por meio da escrita, até agora não priorizei as fotos que tiramos em Família para montar um texto — simplesmente começo a escrever quando identifico um tema e, se encontrar fotos que ilustrem bem a postagem, ótimo, se não, paciência.

Si Hing Thiago Pereira, tirador oficial de copiosas fotos do Clã, já até me deu um puxão de orelha amigável por conta disso.

Fiquei surpreso, portanto, quando percebi que uma ideia para uma postagem estava se formando a partir de uma foto. E o que ela me diz é justamente que nada nem ninguém é unicamente, universalmente aquilo que vemos, preso em um molde, sem variações a depender da ocasião e de quem olha.

Até quem somos muda com a perspectiva de quem nos vê.

Três mestres, três gerações: Si Hing, Si Fu e Si Gung.

Quando vi essa foto, tirada no fim de semana da inauguração do Instituto Moy Yat em São Paulo, fiquei olhando-a por vários minutos.

À esquerda, Si Hing Thiago observa, com um sorriso brando, um gesto afetuoso de um Si Gung risonho para com um de seus muitos discípulos.

Esse discípulo é meu Si Fu, que ali está um pouco diferente do que estou habituado a vê-lo na maioria das fotos. Logo percebi que era porque aquela pessoa que geralmente está na posição de dar esse abraço acolhedor e afetuoso nos outros é quem agora parece estar recebendo-o.

Mas é claro, pensei.

Para Si Gung, ele é to dai, dai ji, discípulo.

Também é si hing de muitos. Si dai de outros. Pai. Filho. Marido. “Meu analista.” O Julio da faculdade (o que também era para mim até mais ou menos um ano atrás). Um ser humano como tantos outros para bilhões de pessoas.

Se me perguntassem “Seu Si Fu é humano?”, eu, racionalmente, responderia “Claro que sim”.

Mas será que sinto isso mesmo?

Não sei o contexto exato da foto, e de propósito não perguntei a ninguém a fim de explorar meus sentimentos baseados na minha interpretação, na minha visão, e se há um pequeno estranhamento em ver Si Fu menos “sifuesco” que o normal, ele deve originar-se de uma crença de que Si Fu é mais que humano ou, pelo menos, um humano superior à maioria.

O mesmo Si Hing Thiago dessa foto, também si fu, já disse a seus discípulos que é natural acharmos nosso si fu o melhor do mundo. (Talvez isso tenha sido dito a ele antes por nosso próprio si fu.)

Pergunto-me se todo si fu, em alguma medida, não acha isso engraçado e ilusório, sabendo que, até chegar onde chegou, deve ter tido de confrontar-se com todos os defeitos possíveis de sua condição humana, pois o Ving Tsun traz isso à tona.

Eu bem sei, mesmo estando tão no início do sistema.

Mal comparando, já recebi certos elogios e fui procurado por pessoas que queriam minha ajuda com certos assuntos que eu supostamente domino. Fico feliz, mas para mim chega a ser esquisito como me veem de uma forma que eu mesmo não me vejo. São duas perspectivas, e mesmo que uma delas seja a minha sobre mim mesmo, talvez não seja necessariamente a mais correta.

Deve ser por isso que pontos de vista diferentes enriquecem discussões e decisões. Que a opinião de um discípulo novato como eu sobre o Siu Nim Do de um irmão kung fu também valha como vale a de um discípulo que pratica há dez anos.

Si Fu, um dos seres humanos da foto, dá um enfoque à diferença entre desenvolvimento pessoal e desenvolvimento humano.

O desenvolvimento humano, no meu entender, sempre pressupõe a relação entre duas ou mais pessoas, pois é a humanidade delas que as conecta. A relação de um ser humano com seu cachorrinho pode ser linda e é única, mas não é uma relação humana, portanto não ocorre desenvolvimento humano.

O caractere chinês (rén, em mandarim; yan/jan, em cantonês; e jin, em japonês), composto pelos radicais de “pessoa” e “dois”, ilustra visualmente a ideia de humanidade muito bem, tendo precisamente esse significado.

E desenvolver-se com o outro é tão essencial, que, num mundo sem espelhos, nem saberíamos a cor de nossos próprios olhos se não tivéssemos quem nos dissesse, ignorando que nosso ponto de vista tem pontos cegos.

Acho que não à toa, num mundo com cada vez mais câmeras frontais (e de alta qualidade) em celulares, corre-se o risco de excluirmos a ótica dos outros que pode contribuir para o nosso desenvolvimento.

Aqui, foi através da lente de outro — Carmen Maris, Luiz Grativol ou Caroline Archanjo, provavelmente —, apontada para meu si fu, meu si gung e meu si hing, que eu pude divisar um instante único para versar sobre os laços humanos que nos unem.

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