Bastidores

“Você tem que ser mais entrão, Rafa.”

Essa é uma das frases de Si Fu que mais reverberam na minha cabeça nestes últimos meses.

É curioso que, nessa curta frase, há vários elementos que parecem ser, digamos, a antítese do Ving Tsun. A ideia de diversidade e expressão pessoal única a cada um é basal em nossa linhagem. A noção de que alguém tem de ser deste ou daquele jeito é estranha. Jamais presenciei Si Fu ordenar qualquer coisa do tipo.

Mas é por lidar com kung fu há um ano e meio que suspeito ser esse um paradoxo da prática: valer-se inclusive do que não está incluído (aparentemente) no pensamento embutido no sistema e fazer isso ter um resultado positivo. Além do mais, este sou eu interpretando uma simples frase talvez um pouco além da conta, dita em um momento de descontração, quando Si Fu mencionava meu cuidado excessivo para não “incomodar”, como bater na porta de seu escritório ou procurá-lo para falar de alguma questão que tenho.

Independentemente de qual for a resposta certa (e se ela existe), o que importa é que houve sim um resultado positivo. Fosse outra pessoa, talvez ela ficasse remoendo o que Si Fu quis dizer, questionando o próprio valor, julgando-se errada.

No meu caso, sendo alguém que precisa mesmo de uma mensagem mais clara e até dura às vezes (o chamado tough love), a “ordem” de Si Fu agora norteia algumas de minhas decisões e atitudes.

Entre elas, a de sair mais vezes do que eu chamo de bastidores.

Si Hing Luciano Freitas e Si Je Carmen Maris praticando o chi sau, que nos revela muito sobre nós, no todo e no momento.

Quando Si Fu me fez o convite para iniciar o processo de discipulado, ele mencionou uma característica minha que é a de aparecer pouco durante o curso de algum empreendimento e ao mesmo tempo contribuir nele. Ou seja, estou lá, ajudando a fazer acontecer, mas nem todos notam. Disse ele na ocasião que isso é um tipo de protagonismo “bastante chinês”, o que me deixou feliz.

Mas, de novo, o kung fu revela-nos que o que é bom pode vir a ser ruim e o que é ruim pode vir a ser bom, a depender da dosagem e do momento.

O que venho percebendo é que minha vontade de permanecer nos bastidores está atrelada a certa passividade nas horas que requerem maior agressividade, no sentido mais refinado da marcialidade.

Na própria prática, por exemplo, isso se manifesta.

Recentemente, quando fazia chi sau com meu si hing Clayton Meireles, comecei a ficar incomodado com uma mania minha: a de iniciar o movimento do toei ma, a base que se move, com um passo para trás, que não raro vinha acompanhado de uma perda de energia nos braços. Com isso, perdiam-se também a aderência dos membros superiores e a conexão com meu parceiro de prática.

Em dado momento fizemos uma pausa, e de modo muito amigável, Si Hing Clayton perguntou: “Por que você sempre vai para trás quando começamos a nos mover?”

Minha resposta veio de uma noção do que acontecia fisicamente, o que acredito não estar de todo errada: “A energia que sinto no início é como um empurrão e me parece natural ir para trás.”

No entanto, se formos levar em consideração o que ocorre mentalmente, essa não é a resposta completa.

Se o punho parte do coração, conforme diz um provérbio marcial conhecido entre nós, interpreto isso como a manifestação daquilo que é físico a partir daquilo que é mental.

Isso quer dizer que, bem antes de fugir fisicamente do confronto, andando para trás e perdendo energia, já fugi mentalmente — e muitas vezes, nem mesmo entrei no campo de batalha, no palco.

Si Hing Leo Reis quebrando todo o mundo. (Mentira.) No canto à direita, quadro com o provérbio marcial 拳由心發 (kuen yau sam faat) — “O punho parte do coração”.

De uns tempos para cá penso até que meu nome kung fu aponta para essa natureza.

Em outra prática, com meu si hing André Guerra, que foi se acirrando de maneira espontânea, chegou um momento em que me afastei dele subitamente como um gato acuado — ou melhor, como um pombo, pois foi o que eu mencionei: “Você acha que pombo luta, Si Hing? Nunca na história da vida na Terra isso aconteceu. Pombo foge!” Na hora rimos, mas a interpretação não me parece tão absurda agora.

Não sei o que Si Fu pensa sobre isso, mas como ele mesmo já disse que devemos nos apropriar de nossos nomes, faz sentido para mim.

Temos então uma combinação terrível para quem quer realizar qualquer tarefa, missão, sonho: o gap (pombo) que foge e o fat (método) que pode ser certinho de mais.

Não é à toa que os bastidores são tão confortáveis para mim, porque tenho meu espaço, meu tempo, meu método. Posso agir quando tiver reunido coragem suficiente.

Mas quando nos encontramos de repente no palco, com os holofotes sobre nós, às vezes contra a nossa vontade, não podemos fazer nenhuma exigência nem reclamar que aquela situação não condiz com a nossa natureza, apenas dar nossa melhor performance com toda a nossa marcialidade, caso contrário corremos o risco de morrer simbolicamente.

Mais tarde naquele dia da prática com Si Hing Clayton, nosso dai si hing Leo Reis estava no mo gun e ofereceu praticar um pouco comigo.

Hesitei a princípio, pois se já fujo com outros si hing, com Si Hing Leo é pior ainda.

Decidi, porém, só para contrariar minhas crenças debilitantes, que praticaria sim e que permaneceria inteiro, ligado, conectado.

Acho que poucas vezes atingi um nível de presença tão alto.

Ao final da prática, Si Hing Leo lançou-me um olhar solene e disse: “Muito bom.”

Pelo visto há um pombo que é capaz de lutar quando quer.

2 comentários em “Bastidores

  1. > Pombo que luta quando quer
    HUAHUAHUAHUAHUHAU MUITO BOM!
    Belo texto, Pombo!

    Curtir

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